Pequeno Irmão - Cory Doctorow

 

Eu vi os luminares da minha geração destruídos pela loucura, famintos, histéricos e nus, arrastando-se  pelas ruas bairro negro de madrugada em busca de uma dose nervosa, hippies com cabeça de anjo desejando o antigo contato celestial com o dínamo estrelado do maquinário da noite… pág. 227

 

 

 

 

 

Marcus Yallow, também conhecido como w1n5t0n, é um garoto de 17 anos que possui um conhecimento acima da média com relação a internet e tecnologia. Viciando em um jogo onde existe interação tanto virtual quanto real entre seus participantes, ele não deixa que sua equipe fique um passo sequer atrás da busca pelo prêmio máximo. E para tal feito é necessário cumprir uma série de tarefas e buscas, porém o garoto jamais pensou que estes simples atos pudessem ir de encontro aos piores momentos de sua vida.

Estando no local errado e na hora errado, Marcus e seus amigos são detidos próximos ao local do pior ataque terrorista a São Francisco já registrado. Como suspeitos de terem alguma conexão com os responsáveis eles são confinados por dias numa prisão passando por interrogatórios intermináveis e pedidos para que tenham acesso aos aparelhos que Marcus portava na ocasião. Até o dia em que ele por fim decide colaborar com seus captores e ser solto, mas não sem ser avisado de que seria vigiado daquele dia em diante.

Uma vez solto e vendo o mundo como ele conhecia transformado em uma prisão onde cada cidadão tinha seus passos e atos registrados, Marcus decide lutar contra o sistema e derrubá-lo com o intuito de ter de volta a liberdade retirada de todos.

Pequeno Irmão do autor Cory Doctorow é antes de tudo um livro cativante, que defende com unhas e dentes o direito da liberdade e ataca abertamente aqueles que tendem a tomá-la com justificativas de ‘bem maior’. Essa é uma postura que reflete diretamente o engajamento do autor, que desde criança se mostrou propenso como militante em questões como o desarmamento nuclear e ações do Greenpeace, e é apresentada ao longo do enredo de formas embasadas em importantes documentos americanos como a Declaração dos Direitos, a Constituição e a Primeira Emenda da Constituição.

Também valendo-se desta luta pela liberdade em todas suas formas o autor faz paralelos e ligações com os movimentos em prol do fim da segregação racial americana, os hippies e yuppies das décadas de 60 e 70 com suas manifestações contrárias a Guerra do Vietnã. Em determinado momento da história Cory Doctorow até mesmo emula o famoso show de Woodstock em uma versão menor num dos parques de sua São Francisco tomada por câmeras e paranóia antiterrorista.

Baseado e motivado por esses preceitos o protagonista da história, um garoto de 17 anos que após sofrer as piores humilhações em sua curta vida, decide se vingar do Departamento de Segurança Nacional criando diversos meios de interferir na busca deste e mostrar o quão inútil é a mesma. Para tanto Marcus consegue criar desde uma rede de internet fantasma, onde seria praticamente impossível rastrear as ações de seus usuários, até interferências diretas, como trocar informações coletadas pelos federais e alterar ‘padrões’ de comportamento dos cidadãos que culminam com o colapso da cidade inteira.

Cada ação do governo e suas falhas sempre são analisadas por Marcus de forma lógica e metódica, porém em nenhum momento o leitor se encontra perdido durante essas passagens. Se há algo que Doctorow parece ter prezado ao escrever Pequeno Irmão fora trazer termos técnicos de informática e criptografia para um modo mais palatável, porém sem perder sua essência ou cair em frases bobas. E deve-se dizer que este é um livro que respeita e instiga a inteligência de quem está lendo-o, em diversas passagens quase podemos sentir que o protagonista, que também é o narrador, está dialogando diretamente conosco, expondo suas teorias e descobertas como se estivéssemos lado a lado com ele.

Essa narração em primeira pessoa também é fundamental para a criação do clima que envolve todo o enredo, conseguindo transmitir bem as emoções e dúvidas do personagem em todos os momentos, assim como permitindo uma melhor análise da evolução que o mesmo sofre no decorrer da trama. Podemos dizer que ao iniciar sua narrativa Marcus era apenas um garoto que sabia modos de burlar a vigilância massiva de sua escola e ao longo das páginas, mesmo sem desejar ou tomar o título para si – escondendo-se sob um novo nick M1k3y, ele se torna um importante vetor para a revolução contra o sistema e suas ações.

Eu balancei a cabeça. – Ninguém consegue alguma coisa não fazendo nada. O país é nosso. Eles o tiraram da gente. Os terroristas que nos atacaram continuam livres,  mas nós, não. Eu não vou me esconder por um ano, dez anos, a vida inteira, esperando que me deem a liberdade de mão beijada. A liberdade é algo que você tem que conquistar. pág. 350

Quase criando uma sociedade distópica ao implementar as medidas enérgicas do Departamento de Segurança Nacional o autor se valeu tanto da paranóia existente quanto a sensação de segurança por meio de vigilância constante impregnada na sociedade moderna quanto em um paralelo com a realidade prevista por George Orwell em seu livro 1984. Livro este em que fora criado o Grande Irmão, ou Big Brother no original – que serviu de inspiração direta para a elaboração do reality show -, um personagem que através de uma série de telas monitorava a vida de todas as pessoas da sociedade. E aproveitando-se deste conceito o autor nomeia sua obra com o nome de Pequeno Irmão, numa alusão a oposição entre os ideais de Marcus e as ações do governo.

E conforme encaminhamos para o desfecho da narrativa, com várias reviravoltas acontecendo e revelações sendo feitas, vislumbramos a genialidade de Doctorow para ligar todos os eventos assim como a de seu protagonista para conseguir dar sua cartada final contra o sistema em uma investida que define tudo como ganhar ou perder, sem meios termos.

Pequeno Irmão é um livro cuja leitura transcorre de maneira natural e rápida, sem qualquer problema durante seu curso. É uma obra instigante, cujo tema – a luta pela liberdade e o direito de usufruir dela – já envolve o leitor de forma surpreendente e todos os reveses que Marcus sofre ao longo da trama apenas tornam maior o carisma desenvolvido por ele.

Para finalizar esta é uma obra que ao lado de 1984 se manterá atual por muitos anos enquanto houver alguma semente da ideia de que a troca da privacidade e liberdade pela falta sensação de segurança imposta pela vigilância descontrolada e falha muitas vezes. Assim como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e a obra máxima de George Orwell, Pequeno Irmão é um livro sobre um medo que sempre assombrará os corações humanos: a tirania de poucos com a desculpa do bem-estar de muitos.

MORDI MORDI MORDI MORDI MORDI! Pág. 322

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Título Original: Little Brother

Título Nacional: Pequeno Irmão

Autor: Cory Doctorow

Ano de Lançamento: 2011

Número de Páginas: 398 páginas

Editora: Galera

Onde Comprar: SaraivaSubmarino

Sinopse: Marcus, pseudônimo “w1n5t0n”, só tem 17 anos, mas acha que sabe tudo sobre como o sistema funciona — inclusive como passar a perna nele. Esperto, rápido e escolado no mundo da internet, Marcus não tem problema nenhum em enganar os sistemas de segurança da escola. Mas sua vida muda totalmente quando ele e os amigos são presos pelo Departamento de Segurança e levados a uma prisão secreta onde serão interrogados. Lá fora, São Francisco sofre um gigantesco ataque terrorista. Agora, cada cidadão é tratado como um terrorista em potencial. Ele sabe que ninguém vai acreditar na sua história, então só lhe resta uma opção: derrubar o sistema com as próprias mãos. O livro de Doctorow, best seller do New York Times (que avaliou o livro como uma “leitura incrível”), chegou a ser comparada com o clássico 1984, de George Orwell. Pequeno Irmão já foi traduzido para diversas línguas e os fãs são tantos que, pela internet, circulam campanhas de arrecadação de fundos para que o livro seja traduzido em idiomas menores como o birmanês e o esloveno. Cory Doctorow é um dos editores do site Boing Boing, que já ganhou por duas vezes o Weblog of the year.

Avaliação: << << << << <<


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Por Gutemberg Fernandes! Apaixonado por literatura fantástica, principalmente a vampírica e de Alta Fantasia! Espero que gostem das obras trazidas por mim até vocês!

12 comentários:

Bruno Bianchi disse... [Responder comentário]

Ta aí um livro diferente do que está no mainstream atual. Gostei bastante da resenha, Guto, deixou bem claro os pontos do livro sem denunciar acontecimentos importantes.

E comparar Pequeno Irmão com 1984 e Admirável Mundo Novo me deixa ainda com mais vontade de conhecer a obra. Já está na minha lista pra comprar.

Bruno Bianchi
http://bruno-bianchi.blogspot.com/

Vulcka disse... [Responder comentário]

"Marcus Yallow, também conhecido como w1n5t0n" What??? haushau...

Parece ter uma trama complexa. Interessante!
Acredito que a resenha está transmitindo a alma do livro. Ótimo trabalho! :D
Se mereceu 5 estrelas, há de ser uma aventura e tanto *-*



PS: Acho que tem mais de 39 páginas :S hihi

Samuely B B L disse... [Responder comentário]

que massa! e a alusão a 1984... uau
beijos

paros28 disse... [Responder comentário]

"(...)esta é uma obra que ao lado de 1984 se manterá atual por muitos anos enquanto houver alguma semente da ideia de que a troca da privacidade e liberdade pela falta sensação de segurança imposta pela vigilância descontrolada e falha muitas vezes. Assim como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e a obra máxima de George Orwell, Pequeno Irmão é um livro sobre um medo que sempre assombrará os corações humanos: a tirania de poucos com a desculpa do bem-estar de muitos."

Maninho pegou pesado no final kkkkk

Achei interessante a resenha, principalmente qdo se tem um livro que comenta sobre tecnologia, liberdade sem ser demagogo, a maioria dos livros que une tecnologia+liberdade tornam-se piegas demais com soluções perfeitas, entendi que Pequeno Irmão é ficcional, mas pelo que pude ver na resenha o autor conseguiu mostrar a realidade.
Além de divertir o leitor sem deixar a leitura monótona.

Camila Costa disse... [Responder comentário]

Uau! é a primeira resenha que eu vejo desse livro e meu desejo de le-lo subiu tipo em mil
eu ainda não sabia direito do que se tratava, mas adorei adorei adorei
beijos


Cabelos ao Vento

Luci Cardinelli disse... [Responder comentário]

Parabéns pela resenha, uma das melhores que já li em tantos blogs que frequanto. Luta pela liberdade é um assunto que me interessa, principalmente pela forma como ela vem mudando ao longo dos anos. 1984 excelente livro e gostei de saber da inspiração para o BigBrother.

abçs

Juliana disse... [Responder comentário]

Nhaaaain, já faz MUITO tempo que eu quero ler esse livro (tá, desde que eu soube da existência dele, mas enfim hahahaha, e cada resenha que eu leio só aumenta essa vontade :(

Ótima resenha, aliás :D

Beijooo!

Ju
http://julianagiacobelli.com

Gisele disse... [Responder comentário]

Resenha muito bem feita como sempre...Achei super interessante a história.
Nem sabia como era o livro até a Galera Record começar sorteios pelo twitter..fiquei com vontade de ler agora!!!!

bjus

Brenda Lorrainy disse... [Responder comentário]

Ótima resenha,umas das melhores que já li!
Não sabia nada sobre esse livro mas com esse tema e uma resenha dessa fiquei louca por ele!

Adriana disse... [Responder comentário]

Maravilha de resenha, eu já havia lido algumas sobre esse livro, mas nenhuma tão profunda como essa! Uma história que fala de liberdade como um todo e que faz críticas mesmo que camufladas à forma de governo e segurança de um país! Excelente livro, adorei!

Marco Antonio disse... [Responder comentário]

Boa tarde!
Gostei muito da resenha e o livro realmente parece ser muito bom..abçs!!

http://devoradordeletras.blogspot.com/

Mika disse... [Responder comentário]

adorei a capa desse livro OO' e a citação acima tbm. Não sabia que o Guto era fã de vampiros (como diz no perfil dele), é surpresa pra mim.

caramba! eu queria ler esse livro agora. Parece ser MUITO interessante. Me empresta?

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