A Passagem - Justin Cronin



Amy sempre teve uma vida diferente do que as crianças de sua idade, mas nada que já tivesse vivido seria capaz de prepará-la para o que viria em seu futuro. Abandonada pela mãe, deixada em um convento e logo depois raptada era só o começo de uma longa jornada para a garota.

Nesse meio tempo o agente Wolgast, divorciado e com um terrível peso no peito por conta de uma perda ainda maior, esta executando sua última missão para o governo antes de se aposentar. Porém ele não imagina as proporções que esse simples trabalho de encontrar condenados a morte e dar-lhes uma segunda chance. E tudo se torna ainda pior quando lhe é ordenado que faça mais uma busca e com urgência.

E muito antes de tudo isso em meio às florestas da Bolívia um mal inimaginável é trazido a tona.

 “Agora eu sei por que os soldados estão aqui” Pg 33


Esse é o mote dos capítulos iniciais de A Passagem lançado ano passado pela Editora Sextante e de autoria de Justin Cronin. Dado como fenômeno editorial de 2010 só tive a chance de conhecê-lo neste ano por conta de sempre ter um receio com relação a capa que me remetia a uma sequência de A Cabana (um ótimo livro, mas não teria paciência para 816 páginas de auto-ajuda). Depois de algumas conversas com pessoas que haviam lido o livro e assim ter conhecido realmente o seu conteúdo me atrevi a comprá-lo, sem ter muitas expectativas.

Iniciei a leitura num fim de tarde sem pretensões e ao passar do segundo capítulo já me via preso à leitura de forma viciante. Escrito de forma com que a leitura avance rapidamente e de maneira fácil, somente se esbarrando em alguns termos técnicos e militares vez ou outra. O enredo traz um pouco do brilhantismo conseguido por Richard Matheson em Eu Sou a Lenda quando uniu o mito do vampiro ao avanço da ciência, mas tem suas nuances próprias e uma profundidade excepcional.

Partindo desta premissa devo dizer que A Passagem é um livro sobre vampiros, mas nada parecido com o que vinha sendo mostrado durante a explosão de publicações a respeito do tema. Não espere por mocinhas indefesas ou romances com rapazes luminosos, o que temos nas páginas do livro são bestialidade e ação de tirar o fôlego.

 Como já dito a trama se desenvolve a partir da conjunção entre o vampirismo e a ciência, onde as boas intenções e humanitarismo acabam sendo substituídas pelo interesse militar.  Então o que deveria ser a cura para todos os males acaba por criar o pior deles. E algumas semelhanças com Resident Evil são mera coincidência, pois o livro supera os enredos deste primeiro em muito.

Lendo a resenha até esse ponto o leitor pode se pode se perguntar se o livro não seria mais do mesmo nas próximas seiscentas páginas que ainda restam. E a resposta é simples e curta: não.

É nesse momento que ocorre o primeiro ponto de virada. Somos apresentados ao Projeto Noé e suas ambições, erros e acertos. Durante várias páginas lemos a respeito do dia-a-dia de algumas pessoas envolvidas no projeto e temos a perspectiva do quão grandioso ele é, mesmo sem ter muitas respostas. Algo que em muitos livros pode ser um tanto quanto frustrante, mas em A Passagem torna a leitura ainda mais emocionante, acrescentando mais curiosidade a cada evento.

Entre um e outro capítulo também temos a oportunidade de ler algumas descrições dos vampiros sob o peculiar ponto de vista de Justin Cronin. Gostei principalmente do ponto desenvolvido quanto a personalidade deles e comportamento, que se torna ainda mais interessante nas páginas finais.


Tensão é o que se sente no decorrer das páginas seguintes enquanto de forma sutil somos envoltos com acontecimentos sobrenaturais que culminam com a quebra da segurança de um complexo que deveria ser totalmente livre de falhas. Assim o caos se instala quando treze criaturas que outrora haviam sido humanas escapam deixando um rastro de morte e destruição.

Após esses acontecimentos passamos para um cenário apocalíptico onde a infecção transmitia pelos fugitivos se espalha rapidamente. A partir deste ponto a trama tem alguns saltos temporais onde são descritos momentos durante a disseminação do vírus e as maneiras como os sobreviventes se mantiveram. Sob um novo núcleo surgem fatos ainda mais instigantes que somados a luta pela sobrevivência num mundo desolado apenas prendem ainda mais o leitor em suas páginas. E surpreendem até a última frase.


Sei que seu deus é a ciência, Paul, mas posso pedir que reze por nós? Por todos nós. Pg. 33


Em todo o livro o autor conseguiu unir três pontos de conflito e abordá-los de maneira simples, clara e imparcial. Misturando as ambições da ciência, algumas reflexões próprias da religião e os mistérios do sobrenatural Justin Cronin conseguiu criar um clima profundo, reunindo em um mesmo livro passagens emotivas, tocantes, com sequências de ação e suspense. E as passagens mais brandas se concentram principalmente quando vamos encaminhando para o final, uma forma de amenizar um pouco dos momentos em que quase perdemos o fôlego.

As personalidades dos personagens também é um ponto muito importante e desenvolvido de maneira primorosa. Você consegue absorver os medos, esperanças e anseios de cada um deles; sentir o que os motiva e as razões que os fazem seguir adiante. Os diálogos são estruturados, e permitem entre um momento e outro haver um pouco de descontração.


A narrativa, como já dito antes, é rápida, bem descrita em todas as cenas, mas sem cair no enfadonho. Valendo-se de uma pequena intertextualidade temos trechos escritos em forma de diários, e-mails entre outros. Isso possibilitou uma aproximação maior em alguns pontos e também fora uma forma interessante de contar alguns eventos sem se valer da narração em terceira pessoa. E sendo todo ele narrado sob a perspectiva de vários personagens diferentes é possível ter um entendimento bom a respeito da trama e experimentar sensações bem distintas.

Mesmo com suas 816 páginas o livro não é uma leitura pesada ou angustiante. Ao contrário o autor conseguiu colocar ao final de cada capítulo algo que prendesse a atenção do leitor e o instigasse a continuar lendo. Perguntei-me algumas vezes durante o transcorrer da leitura o motivo de não terem divido-o em dois volumes e ao final percebi que isto acabaria por destruir o encanto do livro. Pois a espera para se ler a segunda parte acabaria por distanciar quem estivesse lendo do início da história, que é totalmente vital para o desfecho de A Passagem. Outro ponto positivo é o fato de mesmo sendo um livro previsto para ser uma trilogia, o próximo volume se chama Os Doze, há um final que encerra os acontecimentos do livro, mas não sem aguçar a curiosidade.

Para finalizar digo que Bram Stocker foi o responsável por trazer o mito do vampiro para o imaginário coletivo, Anne Rice o sensualizou e tornou mais próximo das pessoas, Stephanie Meyer colocou brilho e nunca entendi o porquê e Justin Cronin os reinventou dando ao mito uma nova imagem ao mesmo tempo brutal e profunda.


Título Nacional: A Passagem
Título Original: The Passagem
Autor: Justin Cronin
Ano de Publicação: 2010
Número de Páginas: 816 páginas
Editora: Editora Sextante/ Editora Arqueiro
Onde Comprar: Submarino - Saraiva
Sinopse: ‘A Passagem’ é um suspense sobre a luta humana diante de uma catástrofe sem precedentes. Da destruição da sociedade que conhecemos aos esforços de reconstruí-la na nova ordem que se instaura, do confronto entre o bem e o mal ao questionamento interno de cada personagem, pessoas comuns são levadas a feitos extraordinários, enfrentando seus maiores medos em um mundo que recende a morte.


Meu nome é Gutemberg Fernandes, ou para os íntimos Guto. Sou fã de literatura fantástica, principalmente épica ou medieval, além de contista nas horas vagas. No Guria irei trazer para vocês um pouco deste universo de cavaleiros e dragões, espadas e magia. Espero que gostem.

11 comentários:

Vívian Rezende disse... [Responder comentário]

Já li outras resenhas muito positivas sobre esse livro e fiquei curiosa! Támbem achava que fosse parecido com A Cabana por causa da capa, mas quando li a sinopse me interessei. :)

Fotos e Livros disse... [Responder comentário]

Eu tenho 'A Passagem' aqui… nunca li, falta de oportunidade e acho que mesmo depois da sua bela resenha… achoo que nao vou ler, estou cansada de vampiros…

paros28 disse... [Responder comentário]

Eu já tinha visto partes da resenha com exclusividade, além da resenha estar simplesmente incrível, os nossos papos realmente me interessei muito pelo livro, acho quem ler a resenha maninha, vai sair correndo comprar pois ela instigou bastante a vontade da leitura

Bruno Bianchi disse... [Responder comentário]

Grande resenha, Guto!
Foi justamente comentários seus que me fizeram comprar o livro (que também me lembrou A Cabana xD). Espero poder lê-lo em breve, pois parece ser uma grande história. (só deixa eu ficar um pouco menos enjoado de vampiros, depois de ler alguns livros das Crônicas Vampirescas xD)

Só uma pergunta. A Passagem é o primeiro livro do Cronin? Porque é incomum um autor estrear com um livro de 800 páginas.

Abraço!

c8ris disse... [Responder comentário]

nossa eu achava que esse livro era mais um de auto ajuda ^^ achei muito legal e sua resenha aguçou minha curiosidade para ver essa nova fase dos vampiros

Vulcka disse... [Responder comentário]

Grande resenha!

Também pensei que fosse relacionado a "A Cabana" devido a semelhança entre as capas, mas acabasse de demolir todas as barreiras que eu tinha construído em volta do livro. Abandonei A Cabana por achar monótono e, sinceramente, porque fala de Deus.
Mudou avassaladoramente a minha precoce opinião sobre A Passagem. Agora quero ler!!


PS: os vampiros da Meyer brilham, assim como o da Rowling vive no sotão se alimentando de insetos. Espécies, ué! Hahá...

Paloma (blog AP) disse... [Responder comentário]

Nossa, pela capa também achei que tivesse relação com 'A cabana'. Nunca tinha parado para reparar nesse livro, e a última coisa que desconfiei era que falava sobre vampiros, sério mesmo. O que me prende mais é romance mesmo, mas eu não descarto nada, e a sua resenha me interessou!
Beijos

Lucy disse... [Responder comentário]

"...o que temos nas páginas do livro são bestialidade e ação de tirar o fôlego."
Não poderia dizê-lo melhor. (;

Acho que esse é de fato um ponto forte e interessante no livro: um grande lado apocalíptico que ameniza um pouco o vampirismo da obra, ainda que de modo e momento algum, se torne tradicional, previsível ou de leitura pesada.

"Sei que seu deus é a ciência, Paul, mas posso pedir que reze por nós? Por todos nós."

E novamente, encontramos aqui uma perfeita escolha de trecho. É um de meus preferidos no livro. E dele em diante, as mudanças são incontáveis, imprevisíveis e verdadeiramente surpreendentes.

E quanto à todos os personagens do livro, um ponto muito forte e que sempre se torna comovente e envolvente quando mencionado, são as razões que os fazem seguir adiante. Razões, que em alguns momentos, são questionadas de uma maneira tão filosófica e brilhante, que mal percebemos que há um livro em nossas mãos. Os olhos apenas voam sobre as páginas e passamos a viver dentro do livro, envoltos na dor e na luta de cada personagem.


A melhor resenha (:

Laiara Martins disse... [Responder comentário]

Oi Rê!!!^^...
Oi Guto! Muito prazer!
Eu estou maluquíssima pra ler A Passagem, Deus me ajude já que não tenho dinheiro pra comprar!
Nuss, que resenha hein! Legal que o jeito do Guto e da Rê de escrever!
Amei a resenha, ai não consigo dizer nem o tamanho da minha vontade de ler A Passagem!

Um beijão pra vc Rê!!!
Congratulations!^^

Celly Borges disse... [Responder comentário]

Gostei da resenha, bastante explicativa. Mas tenho medo de ler os novos livros de vampiros, gosto dos clássicos, não sou muito fã dessas reinvenções exageradas como se deu em Noturno de Gillermo del Toro e Chuck Hogan. Espero que, como conta sua resenha, seja interessante, porque depois de um tempo não temos mais tempo para ler 800 páginas apenas por ler, não é? rs

Gisele disse... [Responder comentário]

Sempre quando passo na Fnac esse livro esta entre os mais pedidos..pego ele, analiso suas milhões de paginas...da uma vontade de ler....principalmente lendo a sua resenha agora!!!!!

bjus

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