Prateleira Nacional #08

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Inspirado na popular série americana America’s got talent, a seção “Prateleira Nacional” do Guria que Lê apresentará os novos talentos brasileiros no campo da literatura. A cada edição um novo autor/ autora terá suas obras apresentadas, bem como o seu perfil e sua carreira literária. Valorize a literatura nacional conhecendo seus autores. Prestigie você também o talento brasileiro!

 

Depois de muito tempo sem postagens, o Prateleira Nacional está de volta e contando com uma grande presença. O entrevistado da vez é Alfer Medeiros, autor de Fúria Lupina Brasil (resenha pode ser lida aqui!).

 

Quando o Alfer me propôs parceria com seu livro, eu estava longe de imaginar o que sua obra me proporcionaria. Encontrei um livro, que além de ser uma enorme surpresa, acabou se tornando uma das melhores leituras nacionais a que tive acesso. Bem escrito, numa narrativa fluente e um enredo envolvente, Fúria Lupina Brasil colocou as garrinhas de fora e me prendeu em sua leitura. Fato pelo qual me tornei fã incondicional da obra e mais um excelente motivo para ter o próprio autor por aqui. Então, espero que gostem da entrevista. Eu adorei! ;)

 

 

 

 

Alfer Medeiros é o pseudônimo de Alexandre J. F. Medeiros, português radicado em São Paulo desde a infância. Apreciador de expressões culturais como literatura, música, cinema e quadrinhos. Analista de sistemas e professor universitário por profissão. Escritor por paixão.

 

 

Guria que Lê: Se você pudesse estar na pele de um lobo, podendo compreender o seu lado humano com mais clareza, como você o enxergaria?

Alfer: Com certeza eu me enxergaria como um humano imperfeito (como todos são), porém sempre disposto a evoluir através do aprendizado e a compartilhar o pouco que sabe com quem quiser.

 

Guria: Como se deu seu contato com a literatura? Quando a escrita passou a ser uma forma de trabalho? Quando é o momento certo de Alexandre deixar Alfer aflorar?

Alfer: Leio desde criança, pois felizmente minha mãe sempre deixou seus livros ao meu alcance. Fui iniciado com Julio Verne e Agatha Christie, junto com histórias em quadrinhos Disney e de super-heróis. A escrita passou a ser uma realidade para mim quando alcancei um ponto da carreira no qual pude dar uma diminuída no ritmo de aprendizado de tecnologias e procedimentos profissionais. Escrever para mim é um hobby, e nunca encarei essa atividade como uma forma de trabalho. Estou muito satisfeito com meu emprego de analista de sistemas e não pretendo deixá-lo! Sobre a “troca de personagens” entre Alexandre e Alfer, esta ocorre sempre que uma ideia maluca passa pela minha cabeça, e então o escritor entra em ação para registrar esses lampejos criativos, antes que eles escapem. Isso pode acontecer a qualquer hora e em qualquer lugar (adotei a prática da escrita em lugares inusitados, via smartphone). Infelizmente, tenho pequenos espaços de tempo reservados à escrita em meio à vida profissional e social que levo, então essa troca tem de ser bem ágil, para que eu possa aproveitar essas “migalhas temporais” da melhor forma.

 

Guria: Por que escrever fantasia? Quais concepções podem ser exploradas nesta temática, que carecem em histórias não-fictícias?

Alfer: Na fantasia não há limites. Existe uma gama infinita de possibilidades a se utilizar, fora de um contexto “comum”, e isso é fascinante. Ter consciência da realidade é essencial, mas poder escapar dela de vez em quando também é muito importante. É desafiador lidar com seres e lugares fora da realidade e mesmo assim ter de soar plausível.

 

Guria: Qual a razão da escolha da temática de lobisomens, como homens-lobos? Por que você resolveu abordá-los dessa forma mais animal, mas com percepções humanas, tendo uma inversão nos papéis, já que o lado ruim é o humano, e o lado justo é o lado animal?

Alfer: Os lobos não são animais perversos, ao contrário do que as pessoas vêm propagando há séculos, através de histórias como Chapeuzinho Vermelho e Pedro e o Lobo, por exemplo. Lobos são territorialistas, têm um senso de grupo muito marcante e uma capacidade de adaptação incrível. Já o ser humano é invasivo por natureza, e todas as más experiências vividas com esses animais são ocasionadas por disputa de território. Meus lobisomens são uma fusão desses dois lados conflitantes, resultando em criaturas fortemente voltadas aos instintos e sentidos, ao mesmo tempo donas de raciocínio lógico e valores morais. Suas preocupações vão muito além de caçar e se esconder. É um texto feito para você se enxergar nele em algum momento, pois os principais sentimentos humanos estão todos ali.

 

Guria: Apesar do cunho sobrenatural, Fúria Lupina Brasil aborda questões reflexivas, envolvendo o comportamento humano. Como não perder o foco da realidade humana frente à ficção? Qual a importância de inserir questionamentos a partir desta visão?

Alfer: Fúria Lupina Brasil vai muito além de feras assassinas espalhando violência e sangue por aí. É um livro com lobisomens, mas em seu cerne trata basicamente de autoconhecimento e relação com o ambiente. Todos os personagens buscam algo na vida, e muitos esbarram em dificuldades nesse caminho de aprendizado. Estou muito feliz com o retorno dado pelos leitores, pois todos enxergam a mensagem do livro que vai além dos licantropos em si. Eu nunca me aventuraria na escrita se não tivesse uma mensagem a passar, e espero sinceramente obter êxito em me fazer entender.

 

Guria: Os personagens de Fúria Lupina são peculiares a sua maneira. Como mesclá-los com suas particularidades, sem abrir mão da história maior, aquela que contempla a todos? Como é construir personagens tão expressivos, e quais as razões por detrás do carisma e rejeição dos mesmos pelos leitores?

Alfer: Sem um bom personagem não há uma boa história. Os de Fúria Lupina são apresentados como peças desconexas, que aos poucos vão se interligando até formarem um cenário final intenso, onde suas relações definirão seus destinos. Se pararmos para pensar, a vida real é assim, onde às vezes uma pessoa desconhecida conquista nossa afinidade e se torna um bom amigo, ou um conhecido de muitos anos nos dá um golpe terrível e inesperado, e some de nossas vidas. Eu tive uma grande preocupação ao criar os personagens de Fúria Lupina, pois morria de medo de conceber seres artificiais e pouco convincentes. Acabei me afeiçoando a muitos deles, e foi duro ter de brincar com suas vidas como o fiz no livro.

 

Guria: Como surgiu Fúria Lupina? Quais foram as inspirações para transformar estes seres mal vistos, pela maioria das histórias, em mocinhos neste enredo? Por que razão você utilizou, como artifícios à história, cenas de ação e violência, morte e sangue, mas com motivações mais fortes e um legado moral a ser defendido?

Alfer: Sou fã de lobisomens desde a infância, predileção esta alimentada inicialmente pelos filmes Um Lobisomem Americano em Londres e Bala de Prata, sempre presentes na televisão nos anos 80. Tenho duas fontes de inspiração básicas para o livro: o cinema, que contribuiu principalmente me mostrando o que não fazer, visto que 98% dos filmes de lobisomem são sofríveis; e também a literatura, desde o essencial O Livro dos Lobisomens, de Sabine Baring-Gould, passando pelos quadrinhos e os poucos livros em português que tratam do assunto, até o que temos registrado sobre as lendas entre os povos antigos. A violência presente em Fúria Lupina é uma forma extrema de entendermos a lei de ação e reação, do olho por olho, dente por dente. Fica mais claro o mal que cometemos se sofrermos esse mal na própria pele. No livro, há muito disso.

 

Guria: Fúria Lupina Brasil é uma história introdutiva ao universo dos homens-lobos, com um enredo recheado de ações, lutas, violências e legados a serem defendidos e cumpridos. Em Fúria Lupina América Central, quais aventuras podemos esperar? Fale-nos sobre o conteúdo do livro.

Alfer: Fúria Lupina Brasil é uma história fechada, com início, meio e fim. Nela, são apresentados os elementos principais do universo proposto. Porém, apenas um livro seria pouco para que eu pudesse explorar todos os conceitos que desejo expor sobre o assunto. Por conta disso, Fúria Lupina América Central surgiu naturalmente, com um novo ciclo de fatos envolvendo lobisomens, desenrolando-se em um cenário completamente diferente, reaproveitando alguns personagens já existentes e apresentando outros inéditos. Nesse segundo volume, os temas principais são territorialismo e submundo do crime. Teremos mais conflitos lobo-lobo em meio a um cenário urbano praticamente sem lei. O clima será outro, e tudo pode acontecer!

 

Guria: Além de Fúria Lupina, que outros projetos você têm planos? O que o leitor pode esperar encontrar no futuro?

Alfer: Para melhorar a clareza desta resposta, vou listar meus projetos deste ano e do próximo, item a item:

  • Antologia Asgard – A Saga dos Nove Reinos (Jambô Editora): lançado em Maio deste ano, é um projeto totalmente focado na mitologia nórdica, onde 26 autores e 14 ilustradores mostraram suas visões particulares do tema. Eu contribuí com o conto Lembranças do Lobo, onde é apresentada a ótica de Fenrir, filho de Loki, sobre os principais acontecimentos de Asgard, desde o nascimento do lobo até o Ragnarok e suas consequências. O blog do livro é http://asgard-saga.blogspot.com
  • Antologia Cursed City (Editora Estronho): também lançada em Maio, esta coletânea desafiou os autores a escreverem sobre weird western (mistura de faroeste com elementos fantásticos), dentro de um cenário predefinido. Participo com o conto O Gigante, A Curandeira e A Lutadora de Kung-fu, meu primeiro texto escrito de forma mais descontraída, sem a sisudez dos anteriores. Nele, esse trio incomum chega à cidade em uma carroça puxada por um cavalo-zumbi, querendo resolver uma velha pendência, mesmo que para isso tenha de encarar todos os horrores que a noite de Cursed City carrega. Mais detalhes em http://www.editora.estronho.com.br/index.php/cursed-city
  • Livraria Limítrofe (Selo Fantas – Editora Estronho): meu segundo livro solo, que será lançado em Agosto deste ano, no evento Fantasticon. É a minha incursão em um universo sem violência, palavrões e feras sanguinárias. Trata-se de uma livraria mágica, localizada nos limites do tempo e espaço da nossa realidade, que materializa os gostos literários dos clientes. Nela, tudo pode acontecer, e o limite é a imaginação dos visitantes. Cada capítulo traz um depoimento em primeira pessoa de alguém que já tenha estado em suas dependências. Diversas referências a obras literárias e autores são lançadas, e a leitura do livro é também uma brincadeira de adivinhar o que está sendo abordado em cada página. Além disso, força a reflexão do que a literatura pode trazer à vida das pessoas, do que significa para cada indivíduo. O blog do livro é http://livrarialimitrofe.blogspot.com
  • Dio Scott e os Vinis Viajantes (em produção): é uma mistura de rock’n’roll com literatura fantástica. Temos o personagem Dio Scott, que possui uma extensa coleção de discos de vinil e também gosta de literatura. Em cada capítulo, ele pega um disco da coleção e cria uma história a partir dele. Teremos um acontecimento sobrenatural baseado no blues do Robert Johnson, uma viagem no tempo ao som de Misfits, criminalidade e satanismo com Iron Maiden, ficção científica com Kraftwerk. Isso e muito mais. A previsão de lançamento está entre o final deste ano e o início de 2012.

 

Guria: Para defender algo, muitas vezes a gente cai de garras e dentes em cima. Pelo quê você utilizaria toda sua fúria? O que você defenderia?

Alfer: Pela família, com certeza. É o único fator de nossas vidas que deve ter prioridade zero. Todo o resto vem depois.

 

 

Proseando...

  • Literatura é o passaporte para viver outras vidas.
  • Quando escrevo me sinto um deus inconsequente em um panteão de quinta categoria.
  • Livros são amigos fiéis, sempre prontos a oferecer o que têm de melhor.
  • O que mais me inspira é a vida, recheada de fatos inusitados e personagens marcantes.
  • Fecho o livro para dormir.
  • Vai para a cabeceira o que cair na minha mão e parecer interessante.
  • Estou folheando diversos livros de contos, para escolher qual é o próximo da fila de leitura.
  • Quero na minha estante todas as obras de Terry Pratchett e Alan Moore.
  • Admiro as palavras de Neil Gaiman, o melhor contador de histórias que conheço!
  • O gênero literário que mais me empolga é o horror.
  • Um livro Os Mortos-Vivos (Ghost Story - Peter Straub)
  • Um personagem Rincewind (DiscWorld)
  • Um(a) autor(a) Agatha Christie, a dama do crime que me introduziu à magia da literatura.
  • Citação favorita Não entre em pânico!
  • Tenho o sonho de poder manter tudo de bom que possuo hoje.
  • Fúria Lupina Brasil é para mim o primogênito de papel e tinta, marrento e rebelde, que me enche de felicidade por existir e abrir tantas portas.

 

Aproveite o espaço para dizer o que você deseja aos seus leitores:

Em primeiro lugar, agradeço todo apoio e estímulo que tenho recebido, que foram muito além do que eu esperava. Além disso, quero deixar bem claro que não possuo ego, joguei o meu fora há alguns anos. Por conta disso, não poupem críticas, reclamações e sugestões a respeito do meu trabalho literário, com receio de que eu fique ofendido por causa disso. Como disse antes, estou em um eterno aprendizado, e considero valoroso todo e qualquer feedback. Obrigado a todos e até breve!

 

 

*-*-*-*

 

É muito bom voltar com o Prateleira Nacional e ter uma presença tão bacana como a do Alfer, que foi muito simpático e atencioso ao responder a entrevista e me deixou com água na boca esperando por Fúria Lupina América Central. Alfer, muito obrigado por ter visto no Guria um potencial parceiro e divulgador do seu livro e, meu especial agradecimento pela receptividade e atenção dedicados a nós (blog e a mim). A você, que me proporcionou uma ótima leitura com sua obra, lhe desejo o melhor e muito sucesso com Fúria Lupina Brasil.

Espero que tenham gostado de conhecer um pouquinho mais sobre este autor brasileiro. Nos próximos dias, tem mais novidade na Prateleira Nacional. =**

6 comentários:

Iansey Murilo disse... [Responder comentário]

Muito bom saber mais sobre autores nacionais principalmente o que escrevem livros bem legais como esse pelo visto. Parabéns ao blog e ao autor :D

Mireliinha disse... [Responder comentário]

É tão legal ver entrevistas de autores que estão fazendo a diferença na literatura nacional *-*
Adoro essa coluna do seu blog, xuxu!

Parabéns pela entrevista!

=*
Mi
Inteiramente Diva

Tânia Souza disse... [Responder comentário]

Muito legal a entrevista e conhecer um pouco mais dessa figura tão interessante na nossa LitFan!!!

Gabriel Arruda Burani disse... [Responder comentário]

Oi ois!
Gostei do modo como foram respondidas as perguntas, e é indispensável dizer que gosto do jeito como você as formula e propõe!

Beijaoo

Adriana disse... [Responder comentário]

Adorei a entrevista! Eu quero ler Fúria Lupina ainda, tinha visto a resenha e me apaixonado pela história e agora vejo o autor tão simpático! Amei demais, bjo Re!

Guto Fernandes disse... [Responder comentário]

Gostei muito da entrevista, Alfer é um daqueles autores cuja personalidade é marcante e interessante de ser conhecida. Achei que o trabalho desenvolvido por ele em Fúria Lupina abriu precendentes para que novos livros sobre Lobisomens e demais licantropos sejam lançados por aqui. Fiquei muito curioso para conhecer Asgard por conta da minha admiração pela cultura nórdica e por conta de ser uma publicação da Jambô, o que já garante muita qualidade na obra.

Enfim como de costume foram feitas ótimas perguntas e para nosso deleite também tivemos ótimas respostas! (E ainda em tempo Cursed City tbm me agradou muito! Faroeste e coisas sobrenaturais são uma mistura interessante!)

Parabéns ao autor pelo sucesso destes projetos e que venham mais livros e mais glórias. E não poderia deixar é claro de parabenizar a minha querida Rê pelo post e entrevista!

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